Lembro-me daquelas tardes como se tivessem acontecido ontem. Chegava a casa acompanhado de um pôr-do-sol lindíssimo e quente, cumprimentava o meu pai (o que não gostava, pois a barba dele picava), subia as escadas e ia observando o enorme chorão onde me escondia da minha mãe nas tardes de verão. Depois, quando chegava ao cimo das escadas a porta abria-se como por magia. A minha mãe esperava-me em casa com um enorme abraço e lanchinho feito especialmente para mim, um pacote de leite com chocolate e uma sandes com Tulicreme. Enquanto comia, contava as minhas aventuras nas árvores e as minhas brincadeiras com os colegas (mesmo sabendo que a minha mãe apenas queria saber se tinha aprendido alguma coisa) e via os desenhos animados do Batatoon: Godzila, Digimon, entre muitos outros. Depois fazia os meus tão detestados trabalhos junto à minha mãe, e quando finalmente os acabava corria para o meu quarto, fechava a porta e imaginava um mundo novo. Criava criaturas mágicas que voavam e brincavam com o meu candeeiro, casas de vinte andares que os carros subiam sem qualquer dificuldade, heróis que faziam de tudo, desde salvar donzelas até matar vilões que ressuscitavam sempre. Nestas criações um dos meus brinquedos favoritos era o Lego, pois com eles podia criar qualquer coisa do nada, era um autentico deus que criava mundos em uma hora todos os dias.
Embora não tenha deixado de ser um criador de mundos, apenas deixei os legos e comecei a usar palavras e uma folha branca, para onde transporto quem quiser. Tal como fazia com os legos, começo por procurar inspiração em algo tão banal como uma foto de um jardim, ou de uma cidade preenchida por arranha-céus. De seguida pensamos em que peças, palavras teremos de usar na nossa criação. E finalmente vem a parte gira, montar, escrever e deixar que a nossa imaginação corra livremente. E sempre que alguém observe a nossa criação vai ficar a saber um pouco mais sobre nós. O que gostamos, o que sonhamos, como imaginamos.
Assim, tanto escrever, como montar legos acaba por ser igual. Ambos criamos mundos, criamos coisas novas do nada. E esta é a magia mais bonita que alguma vez existirá. E todos nós a temos, apenas temos de aprender a exprimi-la. Uns com a fala, outros com desenhos, fotos, músicas, dançais, etc… Todos nós somos criadores, somos nós que criamos o mundo, melhor… nós moldamo-lo como o queremos apenas usando a nossa imaginação. Todos nós somos deuses de nós próprios.



